Sobre a Casa Cuia 9 de mai.
NOMEAR
"Nossa ancestralidade é uma cuia de saberes."
Leda Maria Martins
Que nome dar a este projeto? Eu sentia a necessidade de escolher um nome que representasse o feminino que me antecedeu.
Sou nortista, neta de duas professoras nascidas em cidades do interior do estado do Pará. Minha cultura de origem é riquíssima, oriunda da resistência de povos nativos amazônicos, da sobrevivência de povos escravizados africanos e da cultura hegemônica europeia colonizadora. Apesar dos genocídios, as Amazônias conseguiram resistir ao tempo graças à sua geografia dificílima que impediu o fácil acesso às suas brenhas e graças a povos orgulhosos e teimosos que foram historicamente marginalizados pelos grandes eixos econômicos e culturalmente hegemônicos do Brasil. O descaso político foi o pai de muita precariedade para a região, mas também deixou que a cultura crescesse e brotasse com a fúria e a magnitude das nossas florestas. Na busca de um nome para a casa, me vieram - intuitivamente - duas imagens sonoras: o som de uma cuia sendo mergulhada para carregar água e o som de um maracá sendo movido circularmente com as sementes correndo com fluidez por dentro de sua cabaça.
Os banhos e as benzeções. Os banhos de cuia, os banhos de cheiro, os benzimentos. Mães, avós, curandeiras, benzedeiras, parteiras, mulheres sábias banharam, curaram e benzeram a mim e às pessoas da minha terra com águas, ervas e chocalhos, pedindo proteção, força, saúde e sabedoria. Estas mulheres que nos antecederam não foram legitimadas pelo conhecimento ocidental hegemônico, sempre estiveram à margem das sociedades - mal-ditas pelas religiões cristãs - e , apesar de serem as cuidadoras de suas comunidades, foram apagadas. A estas sacerdotisas, mulheres riquíssimas de conhecimentos históricos, medicinais e espirituais, eu escolhi honrar, dando à casa de acolhimento, ofício e refúgio, o nome de Casa CUIA. A cuia é um utensílio utilizados por distintos povos originários do Brasil e datam de um período anterior à descoberta do uso tecnológico da argila em forma de cerâmica. O espaço oco deste receptáculo atravessou os tempos sendo sede para o desenvolvimento de infindáveis saberes e conhecimentos produzidos por estas mulheres - os quais seguem sendo transmitidos para novas gerações de inúmeras localidades do nosso território.
E o maracá? Uma cabaça de cuieira preenchida por sementes para mover o cosmos com as próprias mãos, guiando tudo o que existe na direção dos nossos desejos saudáveis e intenções legítimas, em sagrados rituais ancestrais. Um sentido absolutamente inspirador para este desejo e intenção política de mover o cosmos com as nossas próprias mãos para transformar a realidade a favor do que mulheres e pessoas queer precisam mover no mundo.
Além de substantivo, também uma possível sigla para muitas palavras preciosas e significativas à pesquisa e à produção de conhecimento e de sentidos: Cultura, Interação e Artes ou Cuíra*, Inspiração e Autoria. Meses depois desta escolha e dos primeiros rascunhos de imagem para marcar a casa, ume grande amigue sacertotize, Ale Attia / Lekuanditala, me escreveu para me contar que estava com Leda Maria Martins e que ela havia dito a elu em aula: "Nossa ancestralidade é uma cuia de saberes." Pois aqui estava a confirmação deste saber intuído que eu carregava nas águas do meu insconsciente e que me soprou os sons que eu guardava em mim quando eu pensava a respeito de honrar as mulheres, suas potências, seus conhecimentos e suas sabedorias.
É preciso seguir o trabalho. Se hoje eu posso andar é porque elas tiveram que correr pra fugir de tudo o que as cerceou e condenou por terem ousado existir para além de seus encarceramentos culturais.
Nos vãos desta casa, e no oco de cada cuia, habitam todas elas.
E em mim. E em nós.