9 de mai.
Manifesto Cuia
Quantas mulheres foram produtoras de conhecimentos, saberes, sentidos e foram apagadas da História? Quantas mulheres estão hoje lutando para produzir conhecimento, conseguir bolsas de pesquisa, contar suas histórias, existir para além das compulsoriedades que a sociedade impõe como projeto de controle de seus corpos e impedimento de sua autonomia?
Mulheres guardam em si potências e latências de saberes e sentidos, mas são muitas as que se encontram soterradas por demandas maternas, domésticas e/ou de cuidados com familiares enfermos, idosos… desfavorecidas por estruturas hegemônicas opressoras de gênero, raça e classe.
Em 1928, Virginia Woolf escreveu seminários para ministrar em Newnham College e Girton College, duas escolas para mulheres na Cambridge University. Tais palestras foram publicadas no ano seguinte, no livro intitulado “Um teto todo seu”. Nesta obra, a autora discorre sobre a abismal desigualdade de condições entre homens e mulheres, de maneira geral, mas especialmente no que diz respeito às condições para a prática da produção escrita, seja ela literária, fictícia, poética, teórica, etc. Um dos aspectos apontados por Woolf é o fato de que mulheres não dispunham da possibilidade de possuírem um espaço só seu para que pudessem dedicar-se ao ofício da escrita de maneira digna. Ela fala sobre as condições precárias e clandestinas nas quais foram produzidas as obras de autoras como Jane Austen, por exemplo, e indaga: se mesmo nesta precariedade foi possível o surgimento da obra “Orgulho e preconceito”, imagina o que poderia ter sido produzido por mulheres se elas tivessem condições adequadas para trabalhar?
Bem, aqui estamos, 97 anos depois. Virgínia deixa em seu livro algumas especulações sobre como poderiam ser as condições das mulheres dali a cem anos. E eu digo a ela que há dois meses eu estive em um auditório lotado de mulheres que estavam ali para ouvir a escritora Chimamanda Ngozi Adichie falar sobre o porquê da importância de se produzir literatura nos dias atuais. Eu tinha acabado de terminar a leitura de “Um teto todo seu” e eu me senti em um buraco de minhoca da física quântica, capaz de conectar o auditório de São Paulo em 2025 e o de Cambridge em 1928. Chimamanda estava ali para dizer às mulheres presentes que encontrassem meios para escrever pois este gesto seria fundamental para a transformação das perspectivas em uma sociedade patriarcal carregada de valores misóginos, classistas e racistas. Portanto, querida Virgínia, te trago boas e más notícias.
Em meio a todas estas esferas sócio-políticas, eu me encontro em um contexto de privilégios e, ainda assim, vivenciei ao longo do mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC, um cenário distante do ideal para pesquisar e produzir conhecimento, escrever artigos, monografias e a dissertação que comprovaria minha capacidade de alcançar a titulação de mestre. Mas…como pesquisar e redigir uma dissertação com duas crianças em casa, interrompendo o pensamento a todo instante; sendo eu uma pessoa TDAH-depressiva-ansiosa; morando em uma região periférica a duas horas de distância da universidade (aproveitando o trajeto de trem para ler em pé as fontes da pesquisa, com uma mão segurando o livro e a outra se segurando para não cair), arrastando uma mala de rodinhas com computador e livros para poder sentar em qualquer espaço aleatório que tivesse mesa, cadeira, tomada e internet onde eu pudesse avançar minimamente com o meu projeto? Eu me perguntava se outras mulheres também tinham essa sensação de impotência. Se outras pessoas estavam em situações semelhantes e, mais ainda, me perguntava sobre as mulheres em situações mais desfavoráveis. Se uma mulher cis, branca, de classe média, com uma estrutura familiar segura, morando em um subúrbio estava atravessando um perrengue para lograr um projeto profissional, fiquei calculando as mulheres trans, as mulheres pretas, as mulheres de baixa renda, as mães solo, as mulheres moradoras de favelas…
Foi nesse momento que nasceu um desejo, filho de uma necessidade: montar um lugar pra acolher pessoas que trabalhassem com leitura, pesquisa, escrita e ofícios editoriais - especialmente mulheres. É urgente que haja um lugar para que nós possamos encontrar condições dignas para trabalhar em nossos projetos, sejam eles de pesquisa, de teoria, de literatura, de tradução, de editoração, de artes (curadoria, autoria, roteiro cinematográfico, peça teatral, projeto para editais…), etc. O desejo de preencher uma casa com toda a latência e a potência de uma comunidade de mulheres e aliados que tenham muito a contribuir para o desenvolvimento de novas perspectivas humanas, artísticas, culturais, sociais e políticas. O desejo e a necessidade de “um teto todo nosso”.
Um dia, por acaso eu encontrei a obra “Um teto todo seu” em uma livraria e resolvi comprar pois eu estava tomada de preocupação com uma amiga que estava há anos refém de um relacionamento abusivo. Eu queria encontrar uma maneira de conseguir ajudá-la a sair daquela situação. Eu não sabia do que se tratava o livro, mas eu sabia que vindo de Virgínia, algum tipo de revolução residia em silêncio naquelas páginas, à espera de alguém que se fizesse meio para que ela pudesse eclodir.
Virgínia Woolf foi límpida em sua argumentação genial. Eu já trazia em mim as minhas angústias, as angústias da minha amiga, as que Elena Ferrante tinha me contado em “A filha perdida”, as que Charlotte Gilman Perkins tinha me contado em “O papel de parede amarelo”, que Conceição Evaristo tinha me contado em “Olhos d’Água”, que Han Khang tinha me contato em “A Vegetariana”, que Balzac tinha me contado em “Madame Bovary”, que….. Não. Não eram casos isolados. Nós estávamos em todas as partes, em todas as épocas, em todas as raças, em todas as classes sociais. Sim, era necessário disponibilizar um teto para que outras mulheres pudessem chamar de seu.
Então a mim cabe semear todo este desejo, repertório e propósito; cultivar cada broto de todo o processo árduo que é começar um projeto - que também seja um sustento; e diariamente estar aqui para abrir as portas para acolher uma comunidade que dê continuidade à produção de saberes e conhecimentos diversos, a partir de perspectivas plurais.
Entra! A casa é tua! Esse teto é todo nosso.
JuVasconcelos